Brasil amplia licença-paternidade, supera os EUA, mas segue distante de países referência A ampliação da licença-paternidade no Brasil, sancionada na última terça-feira (31), reacendeu um debate que vai além do direito ao afastamento após o nascimento de um filho. A mudança também toca na desigualdade de gênero no mercado de trabalho: a forma como o cuidado ainda é tratado como responsabilidade feminina e como essa percepção influencia decisões empresariais, como contratações e promoções. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A nova lei amplia o benefício de forma gradual. O período passa dos atuais cinco dias para 10 dias em 2027, 15 em 2028 e 20 dias em 2029. O direito vale para nascimento, adoção e guarda. O texto também estende o acesso ao benefício a trabalhadores informais, como autônomos e microempreendedores individuais. Apesar dos avanços, o modelo brasileiro ainda mantém o cuidado majoritariamente concentrado na mulher. A maternidade segue sendo tratada como um custo previsível: empresas projetam afastamentos e, muitas vezes, tomam decisões baseadas nessa expectativa antes mesmo da contratação, explica Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, programa de aceleração de carreiras femininas. “A ampliação da licença-paternidade é um avanço muito relevante porque começa a endereçar a origem de um dos principais fatores que geram vieses no mercado de trabalho, que é a distribuição do cuidado”, afirma. Segundo Dhafyni, quando apenas a mulher se afasta, o mercado concentra nela todo o custo percebido da parentalidade. Esse custo não é apenas financeiro. Envolve expectativas sobre desempenho, disponibilidade e continuidade de carreira. Experiências internacionais indicam que políticas mais equilibradas alteram o comportamento do mercado. Em países onde homens e mulheres têm direitos semelhantes, o risco associado à contratação feminina tende a diminuir. “Na hora de contratar, o empregador sabe que tanto o homem quanto a mulher terão direito à licença. Isso evita aquela lógica de priorizar homens porque a mulher pode engravidar”, afirmou o jornalista Guga Chacra ao Estúdio i, na GloboNews. O contraste internacional ajuda a dimensionar o desafio. Nos Estados Unidos, não há licença parental remunerada garantida em nível federal. O afastamento depende de acordos individuais e varia conforme o estado e o tipo de emprego. Em muitos casos, pais retornam ao trabalho imediatamente após o nascimento do filho, relatou o jornalista. Na outra ponta, países como Suécia, Islândia, Noruega, Austrália e Nova Zelândia adotam modelos mais estruturados. Na Suécia, são 480 dias de licença parental por família, com divisão entre os responsáveis e períodos obrigatórios para cada um. Parte do benefício não pode ser transferida, o que incentiva o uso pelos homens e impede que o afastamento recaia exclusivamente sobre as mulheres. Segundo Dhafyni, esse desenho institucional faz diferença. Em países onde a licença para homens era apenas opcional, muitos deixavam de utilizá-la por receio de julgamento ou de prejuízo à carreira. No Brasil, a nova lei retira o país de um grupo entre os mais restritivos e o posiciona em um patamar intermediário. Com cinco dias de licença, o país ocupava a 80ª posição em um ranking global. Com 20 dias, deve figurar entre os 20 primeiros. Ainda assim, permanece distante dos modelos mais avançados. “A ampliação é importante, mas ainda é tímida”, afirma a advogada Ana Gabriela Burlamaqui. “O Brasil não adota uma política de licença parental compartilhada. O cuidado continua concentrado na mulher.” Os dados ajudam a explicar como essa concentração se traduz em desigualdade. As mulheres representam 51,5% da população, mas apenas 53,5% delas estão na força de trabalho. Entre os homens, esse índice chega a 72,8%. 🎓 A diferença não está na formação: elas correspondem a 59,6% dos concluintes do ensino superior. Mulheres no mercado de trabalho g1 Mesmo mais escolarizadas, avançam menos na carreira. Apenas 26,5% ocupam cargos de alta liderança. A desigualdade também aparece na remuneração. Em 2024, as mulheres receberam, em média, 78,6% do rendimento dos homens. Além disso, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e de cuidado. Os homens, 11,7 horas. Entre as mulheres fora da força de trabalho, 22,9% apontam essas responsabilidades como principal motivo para não buscar emprego. Entre os homens, o índice é de 3,1%. Essa sobrecarga molda a forma como o mercado enxerga a maternidade — e o impacto se intensifica no retorno ao trabalho. Conforme o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM), divulgado nesta segunda-feira (30) pelo Ministério das Mulheres, estudos baseados na RAIS (Relação Anual de Informações Sociai) indicam que a probabilidade de emprego das mulheres cai imediatamente após o fim da licença-maternidade. Em até 24 meses, quase metade das mães deixa o mercado formal. A maior parte das saídas ocorre por iniciativa do empregador. Dados do eSocial, da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), reforçam esse padrão. Entre 2020 e 2025, mais de 383 mil mulheres foram demitidas sem justa causa até dois anos após o retorno da licença. Outras 265 mil pediram demissão no mesmo período. Para Dhafyni, esse movimento não se resume às demissões. “Muitas mulheres deixam de ser alocadas em projetos estratégicos. Isso impacta diretamente a visibilidade, a influência e as oportunidades de crescimento dentro das empresas”, afirma. Dispensas do trabalho entre 2020 e 2025 sem justa causa Arte g1 Mesmo quando permanecem empregadas, muitas enfrentam a percepção de que são menos disponíveis. Essa visão se apoia na própria realidade da sobrecarga. "É comum que escolas, creches e serviços de saúde acionem exclusivamente a mãe. Isso reforça a ideia de que ela é a principal responsável", diz. ⚠️ Esse conjunto de fatores cria um ciclo: a sobrecarga afeta a rotina; a rotina reforça estereótipos; os estereótipos influenciam decisões corporativas; e essas decisões limitam a trajetória profissional das mulheres. Há, no entanto, um contraponto que costuma ficar fora do debate, lembra Dhafyni. A maternidade também está associada ao desenvolvimento de competências valorizadas no ambiente de trabalho. Estudos em neurociência indicam que a gravidez e o pós-parto promovem mudanças cognitivas relevantes, com impactos na regulação emocional, na tomada de decisão, no pensamento crítico e na criatividade, afirma a especialista. “No nosso trabalho com desenvolvimento de lideranças, observamos com clareza como a maternidade funciona como um potencializador de habilidades”, afirma Dhafyni. Segundo ela, mães tendem a apresentar maior adaptabilidade, melhor gestão do tempo e alta capacidade de priorização. Em pesquisas conduzidas pelo Todas Group com líderes da América Latina, a maternidade aparece entre as experiências citadas por mulheres que chegaram ao topo das organizações. “O problema não é a maternidade. É a forma como o mercado reage a ela”, afirma. Essa constatação reforça o caráter estrutural da desigualdade. O mercado penaliza um evento que, na prática, pode fortalecer habilidades essenciais para a liderança. A ampliação da licença-paternidade atua na raiz dessa distorção, mas não resolve o problema de forma isolada. Para Dhafyni, a permanência das mulheres no mercado após a maternidade também depende de práticas internas das empresas. Entre as mais eficazes, segundo a especialista, estão: Planejamento de carreira antes e durante a licença Programas estruturados de retorno ao trabalho Lideranças preparadas para conduzir essa transição Benefícios voltados ao cuidado na primeira infância Outro ponto central é o acesso a soluções de cuidado na primeira infância. Empresas que oferecem suporte nessa fase tendem a registrar maior retenção de talentos e menor rotatividade após a maternidade. “Criar contextos que permitam a continuidade dessas carreiras é uma decisão estratégica. Estamos falando de profissionais altamente qualificadas, prontas para o próximo estágio, mas que ainda enfrentam barreiras que nada têm a ver com desempenho”, afirma Dhafyni. A nova legislação brasileira abre espaço para esse movimento. Ela sinaliza uma mudança de direção e reconhece, ainda que de forma parcial, que o cuidado precisa ser compartilhado. Paternidade Juan Pablo Serrano/Pexels O que muda na prática? Com a nova legislação, o Brasil finalmente atualiza as regras da licença‑paternidade e amplia o alcance do direito. O benefício passa a se chamar salário‑paternidade e será custeado pela Previdência Social, com reembolso às empresas pelo INSS. A lei também amplia quem pode ter acesso à licença: além dos trabalhadores com carteira assinada, autônomos, empregados domésticos, microempreendedores individuais (MEIs) e outros segurados do INSS passam a ter direito ao benefício. Outro ponto importante é que o texto reconhece situações em que o pai pode precisar assumir integralmente o cuidado da criança. Nesses casos — como falecimento da mãe, adoção ou guarda unilateral, ausência do nome materno no registro civil, parto antecipado ou internação da mãe ou do recém‑nascido —, a licença‑paternidade pode ser equiparada à licença‑maternidade, chegando a até 120 ou 180 dias. A nova regra também cria estabilidade no emprego durante o período da licença e por até 30 dias após o retorno ao trabalho, além de prever a suspensão ou negação do benefício em casos de violência doméstica, abandono material ou quando o pai não se afasta de fato das atividades profissionais.
Trump durante anúncio do tarifaço em abril de 2025 Carlos Barria/Reuters Em 2 de abril de 2025, Donald Trump surpreendeu o mundo ao anunciar a "independência econômica" dos Estados Unidos, com a imposição de tarifas de importação a todos os países. Desde então, o presidente americano tem se mostrado disposto a manter a medida, mesmo com a Suprema Corte questionando a legalidade do tarifaço. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A DW analisou dados comerciais sobre a origem das importações dos EUA ao longo do último ano para entender os efeitos das tarifas de Trump. Como o mundo vem se ajustando a essa nova ordem econômica? E quem está se beneficiando dessas mudanças? Veja os vídeos que estão em alta no g1 Como falas de Trump mexem no preço do petróleo — e como ele reage com respostas do Irã 2 de abril de 2025: Casa Branca anuncia as tarifas do "Dia da Libertação" No anúncio do tarifaço, no chamado "Dia da Libertação", a Casa Branca informou que todos os países — com algumas exceções devido a sanções e acordos comerciais pré-existentes — seriam submetidos a uma sobretaxa básica de 10% sobre todas as importações. Além disso, 85 países que exportam mais para os EUA do que importam seriam alvo de tarifas mais altas, que chegavam a até 50%. "Não acho que as pessoas esperavam que o governo dos EUA basicamente declarasse uma guerra comercial contra o mundo inteiro", afirma Haishi Li, economista da Universidade de Hong Kong, cuja pesquisa se concentra em como tarifas e sanções afetam o comércio global. O impacto foi imediato, e os mercados financeiros globais despencaram. Enquanto Trump insistia publicamente que "as grandes empresas não estão preocupadas com tarifas", o governo americano decidiu, em 9 de abril, fazer uma pausa de 90 dias em todas as tarifas acima da taxa básica de 10%. Durante essa suspensão, diversos parceiros comerciais, como União Europeia, Vietnã e Reino Unido, correram para negociar acordos comerciais na tentativa de reduzir as tarifas anunciadas. As negociações com a China permaneceram tumultuadas nos meses seguintes, com rodadas de ameaças de tarifas recíprocas que chegaram a até 125%. Após múltiplas extensões de última hora da pausa de 90 dias, as tarifas específicas por país entraram em vigor em 7 de agosto de 2025. O Brasil acabou sendo penalizado com uma tarifa adicional de 40%. Isso elevou para 50% a alíquota extra imposta às exportações brasileiras a partir de 6 de agosto. A sobretaxa, porém, foi revertida por decisão do próprio Trump no fim de novembro. Início de 2025: importadores dos EUA fazem estoques prevendo tarifas Mesmo antes de abril, já era claro que mudanças estavam a caminho. "As tarifas vão nos deixar ricos pra caramba", declarou Trump ao iniciar seu segundo mandato, em janeiro de 2025. As empresas americanas entenderam o recado. Em uma corrida para encher armazéns antes do aumento de custos, ampliaram drasticamente os pedidos e trouxeram para o país, entre janeiro e março, um volume de bens 20% maior do que a média de 2022 a 2024 — um salto equivalente a cerca de 184 bilhões de dólares (R$ 949 milhões). Prevendo tarifas mais altas sobre barras de ouro, por exemplo, os EUA importaram cerca de 50 vezes o volume habitual no início de 2025, totalizando aproximadamente 72 bilhões de dólares (R$ 371 bilhões) — principalmente da Suíça, mas também de fornecedores menos tradicionais, como Uzbequistão, Filipinas e Zimbábue. Grandes fabricantes em toda a Ásia também registraram fortes altas, com Taiwan, Vietnã e Índia exportando volumes acima do normal para os Estados Unidos nesse período. Abril a julho de 2025: empresas americanas migram para países com tarifas mais baixas O período de suspensão implementado em 9 de abril deu aos importadores americanos uma janela de três meses para se adaptar à nova situação. Um estudo de Haishi Li e colegas constatou que as empresas tentaram deslocar suas cadeias de suprimentos para países com menor risco tarifário. "As importações se comportaram como a água, fluindo de países com tarifas altas para países com tarifas baixas", disse Li à DW. Nenhum país sofreu uma redução maior do que a China, que enfrentou as ameaças tarifárias mais altas e voláteis. Entre abril e julho de 2025, os EUA importaram 66 bilhões de dólares a menos da China do que nos anos anteriores. O Canadá, que enfrentou ameaças de tarifas de 25%, também registrou uma queda significativa de 24 bilhões de dólares. No entanto, o país parece ter compensado essa redução ao ajustar seu comércio com outros parceiros: no total, as exportações canadenses em 2025 ficaram apenas 1,6 bilhão abaixo das de 2024. "Os países que mais se beneficiaram do tarifaço foram os 'países dos 10%', como Austrália e várias nações da América Latina", aponta Haishi Li. Mas algumas nações sujeitas a taxas elevadas também registraram forte aumento nas exportações para os EUA: Vietnã, Tailândia e Taiwan enfrentaram algumas das chamadas "tarifas recíprocas" mais altas — 46%, 36% e 34%, respectivamente — e, ainda assim, os EUA registraram um acréscimo de 34 bilhões de dólares em importações de Taiwan apenas entre abril e julho. "Os importadores americanos buscaram países que pudessem servir como substitutos para a China", explica o economista da Universidade de Hong Kong. Muitos fabricantes em Taiwan e no Vietnã já mantinham laços fortes com empresas dos EUA, reforçados durante a disputa comercial com a China no primeiro mandato de Trump, o que já havia deslocado parte da produção e das cadeias de suprimentos para essas e outras economias asiáticas. Americanos arcam com maior parte dos custos Até agora, a medida não trouxe a produção de volta para os Estados Unidos, afirma Alex Durante, economista-sênior do think tank americano Tax Foundation, que analisou o impacto doméstico do tarifaço de Trump. "O último ano foi bastante ruim para a indústria e para o emprego", diz ele à DW. "Os setores que estão crescendo tendem a ser aqueles relativamente protegidos das tarifas, devido a isenções como as concedidas a computadores e produtos ligados à inteligência artificial." Mesmo com a mudança na origem das compras, o valor total das importações voltou ao normal pouco depois do anúncio do "Dia da Libertação", em 2 de abril. Um dos números que mais cresceram foi a arrecadação alfandegária dos EUA. Em 2025, o Tesouro americano recolheu 287 bilhões de dólares em tarifas e impostos, aproximadamente o triplo do registrado em anos anteriores. Dados preliminares indicam que 2026 deve ultrapassar esse total. Essa arrecadação representou cerca de 5% de todos os impostos coletados nos Estados Unidos em 2025. Estudos mostram que as tarifas mais altas têm sido pagas quase integralmente pelos importadores americanos, e não por exportadores estrangeiros. Como resultado, os consumidores dos EUA acabaram arcando com a maior parte dos custos. "Estimamos que as tarifas custaram, na prática, cerca de mil dólares por domicílio americano em 2025", afirma Alex Durante, da Tax Foundation. "Esse é o efeito cumulativo de as empresas aumentarem preços, reduzirem investimentos, cortarem empregos ou diminuírem salários para se ajustar às tarifas." Incerteza assombra exportadores No cenário internacional, os meses desde agosto de 2025 têm sido marcados por acordos comerciais fechados às pressas — e desfeitos com a mesma rapidez —, além de novas rodadas de ameaças tarifárias direcionadas a países ou grupos específicos de produtos. O comércio global, afirma Haishi Li, tornou-se muito mais incerto. "Se você perguntar a acadêmicos, formuladores de políticas nos EUA ou a qualquer pessoa o que vai acontecer neste ano, acredito que ninguém saiba responder", diz o economista. O choque mais recente nesse equilíbrio já frágil do sistema tarifário dos EUA veio com a decisão da Suprema Corte, em fevereiro, que derrubou a base legal das tarifas do "Dia da Libertação". Com uma nova alíquota geral de 15% em vigor e o governo americano aparentemente determinado a encontrar outras formas de aplicar tarifas mais altas, exportadores e importadores tentam prever o que os próximos meses trarão. Para se adaptar a essa incerteza, diz Haishi Li, os governos podem priorizar o apoio a empresas que busquem novos mercados fora dos EUA. "Se conseguirem diversificar suas cadeias de suprimentos, isso as tornará mais resilientes — o que pode ser um ponto positivo em meio a esse cenário", finaliza.
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